
A vida sempre nos reserva muitas surpresas. Aqui está o meu caso.
Nunca pude ter filhos. Entrei precocemente na menopausa aos 26 anos. Nunca fiquei triste ou blasfemei por isto. Já estava decidida. Eu e meu marido não íamos ter filhos. Éramos viciados em trabalho e eu nunca parei para fazer tratamento.
Eu dizia que nunca tinha tempo, pois já estava totalmente preenchido com troca de emprego, emprego novo, promoção, bens pessoais, todas as coisas que pensamos serem importantes na vida.
Quando eu tinha 39 anos uma amiga telefonou-me a dizer que conhecia uma mulher que pretendia abortar e estava com seis meses de gestação. Perguntou-me se eu queria adotar a criança. Respondi: - Você está louca, não tenho tempo para cuidar de uma criança ! Ela ficou indignada e disse que eu era egoísta, e que eu tinha condições para cuidar do bebé.
Passaram-se alguns dias e aquela conversa não saia da minha cabeça. Resolvi então, ligar para minha amiga e perguntei-lhe porque a mãe queria abortar. Ela disse-me que a mãe estava numa situação muito difícil e já estava passando fome. Conversei com a minha amiga e decidi ajudar esta família até a criança nascer. Mandava a cesta básica, roupas, e minha amiga sempre me dizia que os pais desejavam que eu ficasse com a criança.
Faltando 15 dias para o bebé nascer minha amiga telefonou-me a perguntar: - Você já está com tudo pronto ? E eu respondi: Pronto o quê ! As roupinhas, o quarto, etc. Resumindo: em 7 dias fiz um quarto lindo, todo em tons de rosa e branco. Ou seja, era realmente a intenção desta família entregar-me o bebé.
Na porta pus a frase: Bem Vinda LUANA. Quando eu era novinha dizia que ia ter dois Filhos: Luana e Leandro.
A primeira coincidência. Quando o bebé nasceu minha amiga telefonou-me dizendo:- Parabéns mamãe, é uma linda menina. E eu respondi: - Claro que é uma menina, você já havia me dito. E ela respondeu-me: Não, eu não sabia, nem a mãe sabia. Eu disse: Denise, impossível ! Eu fiz o quarto e as roupinhas... tudo em tom de rosa ! Acho que de alguma maneira ou eu sonhei ou foi uma intuição, não sei !
Resumindo: Depois de eu ter-me envolvido a criança não veio. A partir daquele momento a minha amiga despertou-me um sentimento que até então eu não tinha ou que estava adormecido em mim: o desejo de ser Mãe. Chorei muito. Fiquei muito abalada e quis enviar tudo que eu tinha comprado para o bebé e meu marido disse-me para esperarmos mais um pouco: quem sabe aparece um bebé.
Passaram-se seis meses e nada. Pedi a todos. Fui ao juizado. Confesso que saí dali frustrada, pois a assistente social disse-me que teria que esperar uns cinco anos. Resolvi então procurar um médico famoso em fertilização. Fiquei muito decepcionada. Pareceu-me um mercenário a falar muito em dinheiro + tentativas + dinheiro. Na verdade eu teria que comprar um óvulo. Parei alguns dias e pensei: prefiro a adoção. Na verdade, se não é utilizado o meu óvulo, é como se fosse apenas metade meu em termos biológicos.
Quando já havia passado nove meses, minha amiga telefonou-me e disse-me que ouviu numa conversa que uma mãe que estava muito doente (era soro-positiva HIV) e queria doar uma criança. Confesso que eu era uma ignorante sobre o assunto. Conversei com uma médica que me disse que o nosso amado BRASIL é referencia mundial no tratamento de mães com o HIV e que hoje a maioria das crianças que nascem de mães soro-positivas, tornam-se soro-negativas até um ano e meio. Pensamos muito, eu e meu marido, e decidimos que iríamos adotar aquela criança. Mesmo que ela fosse soro-positiva iríamos dar-lhe qualidade de vida.
A segunda coincidência. Seu nome de baptismo era Luana e tinha nove meses. Havia nascido dois dias depois da primeira Luana que não veio. Confesso que fiquei estarrecida. Decididamente esta era a minha Luana e não a primeira que não veio.
Lembro-me que antes de ir buscar minha filha pedi a DEUS que me orientasse e me dissesse se eu estava fazendo a coisa certa. Apanhei minha Bíblia e abriu-se-me numa página que dizia: Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos. Lembro-me que chorei de felicidade. Quando fiz à Luana o exame de DNA qualitativo e quantitativo o resultado revelou que não possuía o vírus HIV.
Quando minha filha tinha dois anos, a mãe biológica engravidou de novo. Decidi então ficar também com seu irmão, o Luan. Confesso que por amor à minha filha, pensei exclusivamente nela. Disse ao meu marido que éramos pais velhos e se chegarmos aos 70 anos, já é lucro. Luana só tem a gente e vamos completar nossa família, vamos dar-lhe um irmãozinho.
Quando o Luan completou dois anos recebeu o diagnóstico de autista. Em nenhum momento fiquei triste, ou chorei, ou desanimei. Sinceramente não sei o que vai ser daqui para frente. Claro que me preocupo com minha filha e às vezes me questiono quando a Luana for maior, se ela vai estar preparada. Ela vai querer casar, penso, vai querer construir uma nova família, e não sei até que ponto o Luan vai progredir, ou seja, pela nossa idade 44 e 50 anos, talvez seja à Luana que caiba a missão de cuidar do irmão. Deus nunca me deu coisas fáceis. Minha vida foi sempre pautada por muita luta. Mas se Deus me confiou esta missão é porque posso executá-la com muita dignidade. Às vezes pergunto-me: se o Luan não estivesse comigo, quais as oportunidades que ele teria ao longo de sua vida ? Nada nesta vida é por acaso. Graças ao meu bom Deus posso oferecer um bom tratamento para o Luan. Valeu a pena termos trabalhado tanto, e termos usufruído tão pouco da vida. Meu marido há nove anos que trabalha e mora sozinho em Manaus, capital do Estado do Amazonas.
Eu também trabalho, e moro apenas com as crianças. Eu e meu marido nos vemos de 30 em 30 dias e nosso casamento nunca sofreu abalos por isto. Estamos juntos e fortalecidos para enfrentar mais esta missão e o mais importante é que estou confiante com a recuperação do Luan. Vamos até o ponto onde ele puder ir e vamos agradecer a Deus todos os dias pelas conquistas e vitórias dele. Meus filhos estão profundamente enraizados em meu coração. Amamo-los com paixão. Sinceramente, não me lembro que eles não nasceram de mim. Deus jamais me confiaria uma missão com tamanha grandeza se eu não pudesse dar o que eu tenho de melhor, ou seja, o meu amor e a minha dedicação como mãe e como ser humano.
Portanto, meus amigos, não estamos sozinhos. Existe Alguém muito especial olhando por nós. Lembre-se: nos momentos mais penosos de nossas vidas, Deus nunca nos desampara.
Ah, já ia esquecendo: Luan também não possui o vírus HIV.
DEUS é generoso e nossos filhos são especiais. Atenciosamente Márcia Rocha Rio de Janeiro Brasil |